A Rainha
Stephen Frears é um especialista em lidar com a dicotomia metafísica realidade-aparência, localizando-a no espaço da sociedade. O tema está em Ligações Perigosas e agora volta com A Rainha.
Em Ligações Perigosas, as cenas mais significativas ocorrem nos momentos em que os personagens aparecem sem a tradicional maquiagem característica da vida na Corte. Isso acontece quando eles são desmascarados, quando seus jogos são postos para o conhecimento de todos no âmbito da Corte. A máscara é dupla, portanto: literal e metafórica. Frears lida bem com isso. Quando os personagens libertinos são desmascarados como libertinos, eles também já não podem mais sustentar a máscara obrigatória dos salões. Todavia, para onde se refugiar? Já não são tão nobres, mas ainda não são burgueses. Se fossem burgueses, poderiam dar as costas à Corte, tirar a maquiagem e voltar à vida doméstica, a vida burguesa onde o que é privado tem mais importância do que é público. Onde o que é privado é a verdade, a realidade, em contraposição ao que é público, que é a vida mascarada, a aparência – a "mera aparência". (ninguém fez mais por essa dualidade que o pensamento moderno, o "pensamento burguês", com Descartes à frente).
A desgraça não está em ser nobre ou burguês nos tempos do Antigo Regime. A desgraça está em não ser nem uma coisa nem outra; em viver na Corte, mas já não ter outra coisa a fazer ali senão usar de uma filosofia – o libertinismo (sim, pode ser!) – para sobreviver sem ter de se transformar em burguês, o que, efetivamente, seria impossível.
Essa é quase a mesma sina de Elizabeth II (Ellen Mirren), em A Rainha. Ela não é nenhuma nobre de araque. É rainha de fato e de direito. Mas os tempos são outros, e o rastro da princesa plebéia também não é pequeno no Castelo. Nos dias entre a morte de Diana e seu enterro, Elizabeth II experimenta, talvez de um modo anacrônico, o que muitos devem ter experimentado nos dias finais de Antigo Regime. Ela começa a perceber em si mesma alguns sentimentos que não poderia ter; o mundo burguês não está lhe derrotando por fora, ele a está consumindo por dentro (quem diria, não, uma rainha com vida interior?). O perigo não é o que Tony Blair aponta, ou seja, a multidão na rua, exigindo que Diana seja enterrada com honras de princesa. O perigo está nela mesma, internamente, no fato de poder se comover com tudo aquilo que é o “gosto burguês”, talvez até plebeu. A cena da morte do grande cervo é completamente emblemática aqui.
Elizabeth II torce pelo cervo, para que ele não seja apanhado. Não age como nobre, age quase como qualquer burguês paparicado pelo romantismo ou, pior, como quase qualquer um de nós, plebeus, embalados pelos filmes da Disney. Um nobre autêntico, em vez de fazer o cervo fugir, chamaria os outros caçadores e o encurralaria. Elizabeth vacila. Haveria uma Diana dentro dela, afinal? Estaria ela descobrindo que não é uma figura com uma só face, a pública, mas com duas faces, a pública e a privada? Estaria ela, enfim, enferma pela doença contagiante de Diana, que era o gosto burguês ou plebeu, deixado ali como bactéria fácil de prosperar em um Palácio frio?
Quando Elizabeth II encontra o cervo morto, ela tenta se controlar. Ouve do comandante de caça do Palácio as diretrizes sobre o ritual da caça, da morte e de como tudo aquilo é deveras importante – e como tem de ser feito daquele modo. Ele não está ensinando a rainha, é claro. Ele está prestando contas. Elizabeth faz o que pode: pergunta se o cervo sofreu. Quando fica sabendo que não, se sente aliviada. Elizabeth II, neste momento, querendo ou não, tenha ou não uma multidão fora do Palácio esperando sua decisão para enterrar Diana como princesa, já tomou sua decisão. Pode ser que ela ainda não tenha consciência de sua decisão, mas que tudo está resolvido, de fato está. Elizabeth já não tem o sangue completamente azul, há pingos vermelhos nele. Tudo que Tony Blair falar, dali por diante, pode ser significativo, mas Frears faz notar que a Rainha já havia sido picada por uma aranha que Nietzsche chamou de “a tarântula Rousseau”. Os sentimentos morais que todos nós curtimos a quatro paredes, principalmente nossos sonhos de ver os animais, vindos da natureza, falar conosco, nos acompanhar em nossa intimidade, como substitutos laicizados de anjos da guarda, estão já correndo no sangue da rainha.
Assistimos, então, Frears mostrar a decadência da Corte? Não. O que assistimos é muito mais sofisticado e sutil que isso. De certo modo, é a vitória da Corte. Os sentimentos envolvidos ali são expostos de uma maneira fidedigna aos tempos de transição. Elizabeth II desce, verifica os bilhetes deixados ao redor do Palácio. Vários, senão a maioria, são agressivos à Família Real, cobrando deles uma posição menos intolerante em relação à Diane, agora, após sua morte – “ao menos”. Ler tudo aquilo poderia desestabilizar qualquer governante democrata. Mas não a Rainha. Reis e rainhas não devem seu poder ao povo; mesmo em monarquias constitucionais, reis e rainhas são reis e rainhas. Na verdade, nessa cena, o feitiço jogado por Diana no Palácio, em vez de enfraquecer Elizabeth, a fortalece. Ela se volta para o público, anda de forma elegante, mostra-se claramente como a rainha dos ingleses, e se comove com a flor entregue por uma criança, e assim age de um modo comedido, mas perfeitamente apropriado aos novos tempos: recebe as flores dadas pelos súditos, leva-as em consideração, mas sem qualquer gesto burguês, sem um sorriso maior ou um sinal de gratidão que possa parecer um “ah, então, vocês me perdoam?”. Nada disso. Deixa o público entender que ela sabe compreender o burguês, talvez até o plebeu, mas que fique claro, ela não é um deles – ela é a rainha de todo eles, de todos que estão ali. Deus lhe deu o poder, não o povo. Essa capacidade de, naquele episódio, ser Diana e, ao mesmo tempo, ser de fato Elizabeth II, é um espetáculo verídico – tenha ou não acontecido daquele modo –, que Frears, um mestre na exposição desse tipo de relação, soube aproveitar bem.
Todos os comentaristas do filme, que já li até o momento – e não foram poucos – imaginam que Tony Blair tirou vantagem política do episódio. Mas ele, Blair, sabia que isso não era possível. Frears deixou claro que isso não ocorreu. Só para nós, os colonos que vivem sob regimes burgueses, é que essa idéia poderia ocorrer. Elizabeth, ao olhar para a criança, ao pegar as flores, repassa seu olhar por todo o público que estava ali, e deixa bem claro que a Grã Bretanha era, é e será, para todo o sempre, um Império. Só um rei muito desastrado poderia arrebentar isso. Tony Blair disse isso a seus assessores e esposa. Frears disse a nós. Elizabeth disse ao mundo.
Paulo Ghiraldelli Jr.
“O Filósofo da Cidade de São Paulo”
http://www.centrodefilosofia.com.br/
http://www.filosofia.pro.br/
http://www.ghiraldelli.pro.br/
Stephen Frears é um especialista em lidar com a dicotomia metafísica realidade-aparência, localizando-a no espaço da sociedade. O tema está em Ligações Perigosas e agora volta com A Rainha.
Em Ligações Perigosas, as cenas mais significativas ocorrem nos momentos em que os personagens aparecem sem a tradicional maquiagem característica da vida na Corte. Isso acontece quando eles são desmascarados, quando seus jogos são postos para o conhecimento de todos no âmbito da Corte. A máscara é dupla, portanto: literal e metafórica. Frears lida bem com isso. Quando os personagens libertinos são desmascarados como libertinos, eles também já não podem mais sustentar a máscara obrigatória dos salões. Todavia, para onde se refugiar? Já não são tão nobres, mas ainda não são burgueses. Se fossem burgueses, poderiam dar as costas à Corte, tirar a maquiagem e voltar à vida doméstica, a vida burguesa onde o que é privado tem mais importância do que é público. Onde o que é privado é a verdade, a realidade, em contraposição ao que é público, que é a vida mascarada, a aparência – a "mera aparência". (ninguém fez mais por essa dualidade que o pensamento moderno, o "pensamento burguês", com Descartes à frente).
A desgraça não está em ser nobre ou burguês nos tempos do Antigo Regime. A desgraça está em não ser nem uma coisa nem outra; em viver na Corte, mas já não ter outra coisa a fazer ali senão usar de uma filosofia – o libertinismo (sim, pode ser!) – para sobreviver sem ter de se transformar em burguês, o que, efetivamente, seria impossível.
Essa é quase a mesma sina de Elizabeth II (Ellen Mirren), em A Rainha. Ela não é nenhuma nobre de araque. É rainha de fato e de direito. Mas os tempos são outros, e o rastro da princesa plebéia também não é pequeno no Castelo. Nos dias entre a morte de Diana e seu enterro, Elizabeth II experimenta, talvez de um modo anacrônico, o que muitos devem ter experimentado nos dias finais de Antigo Regime. Ela começa a perceber em si mesma alguns sentimentos que não poderia ter; o mundo burguês não está lhe derrotando por fora, ele a está consumindo por dentro (quem diria, não, uma rainha com vida interior?). O perigo não é o que Tony Blair aponta, ou seja, a multidão na rua, exigindo que Diana seja enterrada com honras de princesa. O perigo está nela mesma, internamente, no fato de poder se comover com tudo aquilo que é o “gosto burguês”, talvez até plebeu. A cena da morte do grande cervo é completamente emblemática aqui.
Elizabeth II torce pelo cervo, para que ele não seja apanhado. Não age como nobre, age quase como qualquer burguês paparicado pelo romantismo ou, pior, como quase qualquer um de nós, plebeus, embalados pelos filmes da Disney. Um nobre autêntico, em vez de fazer o cervo fugir, chamaria os outros caçadores e o encurralaria. Elizabeth vacila. Haveria uma Diana dentro dela, afinal? Estaria ela descobrindo que não é uma figura com uma só face, a pública, mas com duas faces, a pública e a privada? Estaria ela, enfim, enferma pela doença contagiante de Diana, que era o gosto burguês ou plebeu, deixado ali como bactéria fácil de prosperar em um Palácio frio?
Quando Elizabeth II encontra o cervo morto, ela tenta se controlar. Ouve do comandante de caça do Palácio as diretrizes sobre o ritual da caça, da morte e de como tudo aquilo é deveras importante – e como tem de ser feito daquele modo. Ele não está ensinando a rainha, é claro. Ele está prestando contas. Elizabeth faz o que pode: pergunta se o cervo sofreu. Quando fica sabendo que não, se sente aliviada. Elizabeth II, neste momento, querendo ou não, tenha ou não uma multidão fora do Palácio esperando sua decisão para enterrar Diana como princesa, já tomou sua decisão. Pode ser que ela ainda não tenha consciência de sua decisão, mas que tudo está resolvido, de fato está. Elizabeth já não tem o sangue completamente azul, há pingos vermelhos nele. Tudo que Tony Blair falar, dali por diante, pode ser significativo, mas Frears faz notar que a Rainha já havia sido picada por uma aranha que Nietzsche chamou de “a tarântula Rousseau”. Os sentimentos morais que todos nós curtimos a quatro paredes, principalmente nossos sonhos de ver os animais, vindos da natureza, falar conosco, nos acompanhar em nossa intimidade, como substitutos laicizados de anjos da guarda, estão já correndo no sangue da rainha.
Assistimos, então, Frears mostrar a decadência da Corte? Não. O que assistimos é muito mais sofisticado e sutil que isso. De certo modo, é a vitória da Corte. Os sentimentos envolvidos ali são expostos de uma maneira fidedigna aos tempos de transição. Elizabeth II desce, verifica os bilhetes deixados ao redor do Palácio. Vários, senão a maioria, são agressivos à Família Real, cobrando deles uma posição menos intolerante em relação à Diane, agora, após sua morte – “ao menos”. Ler tudo aquilo poderia desestabilizar qualquer governante democrata. Mas não a Rainha. Reis e rainhas não devem seu poder ao povo; mesmo em monarquias constitucionais, reis e rainhas são reis e rainhas. Na verdade, nessa cena, o feitiço jogado por Diana no Palácio, em vez de enfraquecer Elizabeth, a fortalece. Ela se volta para o público, anda de forma elegante, mostra-se claramente como a rainha dos ingleses, e se comove com a flor entregue por uma criança, e assim age de um modo comedido, mas perfeitamente apropriado aos novos tempos: recebe as flores dadas pelos súditos, leva-as em consideração, mas sem qualquer gesto burguês, sem um sorriso maior ou um sinal de gratidão que possa parecer um “ah, então, vocês me perdoam?”. Nada disso. Deixa o público entender que ela sabe compreender o burguês, talvez até o plebeu, mas que fique claro, ela não é um deles – ela é a rainha de todo eles, de todos que estão ali. Deus lhe deu o poder, não o povo. Essa capacidade de, naquele episódio, ser Diana e, ao mesmo tempo, ser de fato Elizabeth II, é um espetáculo verídico – tenha ou não acontecido daquele modo –, que Frears, um mestre na exposição desse tipo de relação, soube aproveitar bem.
Todos os comentaristas do filme, que já li até o momento – e não foram poucos – imaginam que Tony Blair tirou vantagem política do episódio. Mas ele, Blair, sabia que isso não era possível. Frears deixou claro que isso não ocorreu. Só para nós, os colonos que vivem sob regimes burgueses, é que essa idéia poderia ocorrer. Elizabeth, ao olhar para a criança, ao pegar as flores, repassa seu olhar por todo o público que estava ali, e deixa bem claro que a Grã Bretanha era, é e será, para todo o sempre, um Império. Só um rei muito desastrado poderia arrebentar isso. Tony Blair disse isso a seus assessores e esposa. Frears disse a nós. Elizabeth disse ao mundo.
Paulo Ghiraldelli Jr.
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