Brokeback Mountain
Ennis Del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) se apaixonam na "velha Brokeback mountain". São cowboys e tudo que se espera deles é que se comportem como homens, e não como “maricas”. De fato, eles se comportam como homens. Neste filme, os gays são gays, mas não são afeminados nem fazem o “tipo inverso”. O filme, baseado em uma "short story" de Annie Proulx, publicada pela primeira vez no The New Yorker em 1997, é o final de um percurso que eu avalio como tendo seus principais antecessores em Philadelphia (1993) e Boys Don’t Cry (1999).
“Philadelphia” explorou a relação entre homossexualismo, AIDs, desrespeito aos “direitos civis” e, é claro, preconceitos. “Boys Don’t Cry”, já distante uma década do período de “fim das ideologias”, se importou menos com “direitos civis” e mais com questões relativas à pura crueldade, quando fruto de preconceitos. Foi um período de transição. Finalmente, agora, chegamos ao final da trajetória. Os “direitos civis” não são mencionados. A crueldade, embora mencionada e mantida como o fantasma principal, não é explorada. O tema central é o amor, o namoro e, é claro, para o drama, simplesmente o amor perante problemas de desencontros, problemas familiares, falta de dinheiro, casamentos errados, etc. Os heróis são gays, mas o filme não é o que há pouco tempo chamaríamos de um “ típico filme gay”. É um filme com um tipo de história que já foi explorada, mil vezes, tendo por personagens casais corriqueiros, um homem e uma mulher apaixonados. No entanto, ainda o coloco na ponta do iceberg gay. Ele é o cume. É o fim de uma época
Essa época começou, de fato, com filmes que colocavam a vida gay como impossível, ora do ponto de vista político ora de ponto de vista de questões menos relativas à vida na cidade, mas, enfim, questões onde o problema todo era o da não possibilidade da vida gay diante de um mundo não-gay. Agora não. Os heróis têm dificuldades de dar seqüência ao amor. Mas não tiveram aquelas dificuldades que de fato tiveram por causa delas serem dificuldades que aparecem no mundo gay, exclusivamente. Não se trata de Tom Hanks, em Philadelphia, impedido de ser um executivo por causa dos patrões suspeitarem que ele tem AIDS e que, por conta disso, certamente é gay (AIDs era a “peste gay”). Não se trata de Hilary Swank, em “Boys Don’t Cry”, querer ser um menino que se dá bem com meninas e, então, obtendo de fato sucesso, recebe a violência crua do ex-namorado da garota com que acaba ficando. Não, nada disso. O centro da história de Broke Back Montain é o relacionamento de Jack e Ennis. Tudo que eles passaram são problemas que pegaram todos os outros casais não gays, e que ainda vão pegar mais outros – mesmo em um mundo dito liberado como o nosso. Mas nisso, todavia, o filme é gay. Ou melhor, é o último dos filmes gays.
O filme mostra o fim de uma época: o fim dos filmes gays. Não pelo fato deles terem esgotado o tema. Nem pelo fato do filme ser ótimo – e de fato é – e ter então impedido que outro lhe venha fazer sombra. Mas pelo fato deste filme ter cumprido o que agora podemos perceber como sendo uma trilogia. Os três filmes mencionados formam, ao fim e ao cabo, uma trilogia. Pois este último é a volta do amor gay ao terreno do simples amor. Ou seja, o amor gay, agora, em nada difere do amor, retorna ao problema do amor: o desencontro – a não realização completa do amor, tendo como palco a Terra.
No começo da década de noventa, antes mesmo de Philadelphia, o filósofo estadunidense Richard Rorty dizia que os vocabulários alternativos aparecem para mudar a nossa conversa e a vida. E, então, quando não se tornam mais alternativos, ou é pela razão de que desapareceram ao se incorporarem ao que não é mais alternativo, deixando de serem necessários, ou porque não “pegaram”, não deram nenhum resultado. O exemplo que ele cita é exatamente o “amor gay”. Ele comentava, naquela época, que o “amor autêntico”, exemplar, havia deixado de ser representado como tal nas artes e literatura por meio do amor corriqueiro, de dois apaixonados, e que o amor gay havia tomado conta da idéia de amor autêntico. Ele acrescentava que isso se fazia como uma loucura e, logo logo, iria se fazer como algo alternativo e, então, como algo regular. Quando fosse feito como algo regular, o modo de conversar da sociedade a respeito de problemas do mundo gay já estaria a meio caminho andado de ser aceito. É o que temos.
O número de pessoas que tem ido ver o filme dos cawboys e que se emociona sinceramente é bastante grande, principalmente no último quarto da película. Tudo ocorreu exatamente como Rorty profetizou. Não estamos mais na fase de dizer “ele é gay, mas ele tem direitos” ou “ela é lésbica, mas, enfim, não quis prejudicar ninguém”. Não, quem foi ao cinema e se emocionou saiu dizendo: “eles se amavam e um não ficou com o outro o tempo que queria; puxa, como é bom não adiar as coisas, ficar com quem a gente ama enquanto há saúde, vida e quando tudo pode acontecer”. Ora, essas exclamações mostram que o público, ainda que tenha sido atraído pelo fato do amor ser entre homens, no meio do filme, captou uma mensagem vinda do amor, e não mais do que chamávamos de “amor gay”. Encerramos uma fase da história. A coruja pode levantar vôo. Já estamos no entardecer.
09/fevereiro/2006
Paulo Ghiraldelli Jr - www.ghiraldelli.pro.br




8 comentários:
Olá..
estava lendo seu texto e como assisti o filme achei seu ponto de vista certissimo...
Claro que sempre tem akeles que vão ao cinema com o intuito de debochar e fazer suas gracinhas...
Mas com certeza a maioria do publico(Como eu) se emocionou muito ao pensar em um amor eterno que nunca poderia se tornar público, pelo fato de existir a barreira do preconceito...
Parabens pelo texto...
e espero passar aki mais vezes..
Abraços..
Vc esta errado, o ciclo não acabou, o que acontece é que o autor e o diretor do filme fizeram de um modo que não houvesse chance de criticarmos os dois personagens. Mas a critica existe em nossa alma, em nossa alma coletiva e isso ao mesmo tempo que possa parecer uma doença, uma peste do preconceito, também nos dá algum senso de o que é certo ou errado. O que se perdeu na modernidade é justamente isso, não temos mais base para julgar nada, pois atitudes de outras épocas já fazem parte do passado.
Renata Mayer
O texto e sua avalição são perfeitas, só lamento ainda não ter visto o filme, meus amigos que asistiram acharam barbaro....
Concordo com o texto, vamos atrás daquilo que queremos, quem sabe faz a hora, como diria Vandré!
O filme é extremamente bem-feito. A fotografia é maravilhosa, grandiosa, os atores estão perfeitos. O filme nasceu para ser "cult" e entrou no circuito comercial, tornou-se um sucesso. Não acho, como disse a Renata Mayer em seu comentário, que perdemos o senso do que é certo ou errado. Pelo contrário, enquanto nos preocuparmos em se é certo ou errado amar alguém do mesmo sexo - e eles realmente se amavam, não apenas sentiam atração sexual um pelo outro, pois isso não duraria tantos anos, como é mostrado no filme, uma hora o fogo da paixão se apaga - nos focamos erradamente. Errado, sim, é nos preocuparmos tanto com o amor do outro, sendo que não temos as soluções para nossos próprios erros e acertos em nossas relações afetivo-sexuais. Parabéns pelo artigo! Devemos nos despojar de sermos juízes e compreendermos mais a essência do que nos cerca! Feliz daquele que assistir esse filme belíssimo, espelhando-se, com a mente e o coração abertos, pois o filme mostra amor, dor, paixão, saudade...sentimentos comuns a todos nós!
Muito bom seu comentário, mas vejo além, quero dizer que o filme não me passou uma mensagem tão totalmente pra preconceitos ou sobre o homossexualismo, pois tal estória poderia acontecer com um casal hetero também, lembre-se que Ennis se dizia preso, há casamentos que prendem, bens que prendem, filhos que prendem, então acredito que amantes cabem também nesse contexto, ou a própria covardia de se tentar o novo. Lógico que Ennis pensava e temia o preconceito, já Jack,não. Mas já era tarde, não é mesmo??? Pra mim é uma lição, onde não deveríamos deixar um amor de verdade escapar por entre os dedos, ou então, eternizá-lo pelo temor que se tivéssemos tentado talvez não tivesse sido tão sublime por ser tão impossível!!!
Nossa sociedade não consegue sair da modernidade por mais que ela se torne, tecnólogicamente falando, mais avançada porque o sistema que impera é o do capital. Nesse sentido, com relação ao filme em questão, não existe nada de novo, nada que quebre um paradigma, que reverta uma situação.
Esse filme só ilustra o que já se sabe, ou seja, se um casal homosexual quer viver seu amor tem que se esconder, se quer ter momentos de carinho tem que procurar os guetos que se disfarçam de bares e boates gls,pois a sociedade não aceita como natural um casal do mesmo sexo beijar ou ter gestos de carinho em público.
Então eu entendo que o filme só mostra isso, nao mostra nada de novo, não sugere uma nova forma de luta para ser aceito.
Vendo por essa otica, só posso entender que como a nossa epoca, tão moderna mas que nao pode ser compreendida como pós moderna por conta do sistema capitalista, esse filme só nos dá uma uma noção do que já sabemos, ou seja, nada muda, se pessoas do mesmo sexo querem viver um amor, devem se privar da companhia da sociedade, esquecer os lugares frequentados por heterosexuais e procurar sua montanha secreta.
achei um filme sério.Não é apelativo apesar de algumas cenas mais fortes. A principal mensagem do filme é relatar os conflitos que uma pessoa tem ao ser ver envolvida num tipo de relacionamnto como este. Por que a principio eles eram heteros, até aquela situcao de solidao na montanha. Na verdade eu acho que o ser humano tem necessidade de compania ele não nasceu para viver só. Acho que qualquer pessoa pode sentir atracao por outra do mesmo sexo dependendo da situacão que ela esteja vivendo. Lógico que ninguem admite isso, porque nossa formacão Cristão, familiar,psicologica rejeia tais sentimentos. Porém eles ocorrem. A comecar que é comum meninos na pré adolescencia se procurarem para safisfacao sexual e depois dizem que foi coisa de crianca que nada ficou o que é uma mentira. Mas eu na verdade somente acredito no relacionamento conjungal entre um homem e uma mulher. O homem complementa a mulher e ela complementa o homem. Outros relaciomentos é somente trsiteza, insatisfacao e sentimento de culpa.