Carregando...

29 Janeiro 2006


FREE ZONE

Há problemas que parecem insolúveis. E são. Ao menos aos olhos da história, ainda que a história não possa julgar nada. A relação entre árabes e judeus é um daqueles problemas com os quais muitos acham que a única solução é a adotada por Pilatos: lavar as mãos.
O filme Free Zone usa do encontro de três mulheres para dizer exatamente o que tem sido a política do Oriente Médio. Uma judia, uma árabe e uma americana. Durante um momento do filme, o da música, elas parecem concordar. A música as embala. Só neste momento. Logo tudo se define: a palestina (Hiam Abbass) e a judia (Hannah Lazlo) voltam a discutir, a americana deixa o carro e vai embora correndo. Não há o que fazer.
Será que é assim que os Estados Unidos, a potência líder do mundo, deve agir diante do conflito "eterno" entre árabes e judeus?
Ao contrário do que imaginamos, nos Estados Unidos, não são os republicanos e conservadores que advogam, sempre, a intervenção em outros países. Na maioria da vezes, republicanos e conservadores acham que isso é uma perda de tempo e dinheiro. Democratas e liberais é que acreditam que os Estados Unidos, em todo lugar onde ele puder levar a democracia e servir de mediador, ele assim deve agir. Mas parece que o filme do diretor israelense Amos Gitai quer insistir na idéia de que há quase mesmo uma perda de tempo: o Ocidente não entende o que ocorre entre árabes e judeus - jamais entenderá. Resta correr, se afastar.
Free Zone, o local que dá nome ao filme, realmente existe. Entre, Jordânia, Iraque, Egito, Síria e Israel há um lugar de livre comércio. Ali há a venda e a negociação de carros - e há paz. É como se tudo viesse a lembrar a idéia iniciais da burguesia européia: não importa suas crenças, vamos parar as guerras de religião, ao menos nos lugares onde compramos e vendemos - ali, somos todos iguais. O filme mantém, com sua metáfora, este aspecto da Free Zone: as mulheres só voltam a discutir quando chegam na fronteira, quando já atravessaram toda a Free Zone. É ali que recuperam o sentido do que fizeram durante toda a existência: não se davam bem - devem continuar isso. Um destino. À americana (Natalie Portman), então, só resta correr. Sair daquilo.
Mas é só sobre geopolítica o filme? Três mulheres, que vão resolver problemas deixados por maridos, probemas caseiros, e que metaforicamente lembram as relações políticas de árabes e judeus? Não! O filme é, também, pura filosofia. Ele tem uma grande epígrafe, que é uma música folclórica, dessas músicas recorrentes que, aliás, temos no Brasil também. Todo o filme é um grande desenvolvimento desse tipo de música. Ou seja: a história se repete, se repete, se repete. Ainda que nunca se repita, pois há sempre um novo elemento entrando em cena. Mas o novo elemento não deixa a trama mudar. Sendo longa, a música mostra que também a história de árabes e judeus é longa - é, afinal, a mais longa de todas as histórias, uma vez que é a história dos povos mais antigos. Quase que podemos dizer que é a história da humanidade. Ou, ao menos, da humanidade ocidental.
O filme é antes de tudo uma grande poesia para o Oriente Médio. Imperdível.
Paulo Ghiraldelli Jr. - www.ghiraldelli.pro.br

2 comentários:

Rumo à Zagadska disse...

Caro Professor

Ainda ñ tive oportunidade em assistir esse filme, porém diante de nomes ou palavras como "conflito da Palestina", "árabes e judeus", "Amós Gitai", "Free Zone", "filosofia e cinema", tenho em minha lembrança uma frase de Gilles Deleuze, tomada por mim como legenda para um estandarte:"pensar é seguir a linha de fuga do vôo da bruxa".

Sei da insistência das Escolas Oficiais de Filosofia, em preservar a pureza do ouro filosófico, as palavras de cada filósofo antigo, por tradição, por respeito e, é óbvio, também pela necessidade de tomada de poder.

Porém, se há um lugar, um topos, na contemporaneidade, a propor filosofia no sentido de provocar a reflexão e um turning point sobre o próprio cotidiano, esse lugar, é o cinema.

Filmes como "Os Sonhadores", apenas são ilustrações (iluminuras diria Rimbaud) para os nossos sentidos, apesar de nos provocar delícias de nostalgia sobre o não-vivido. Porém, um fime triste e amargo, ainda que belo, tocando o sublime, como "Para sempre Lyla", abre-se como uma metáfora (lembra-se: transporte, transportar, transladar)para pensar no que terá se transformado a Rússia pós-comunista, os velhos sonhos de esquerda, as utopias socialistas soterradas sobre as novas construções, como um dia, a Igreja Católica fez sobre as ruínas dos antigos templos de deuses pagãos.

Sobre "Free Zone", ainda apenas desejado, cabe-me referir um livro, cujo título não recordo com exatidão, algo como "A Paixão Encarnada", escrito por Jean Genet, sim, aquele bandido que recebeu a amizade de Sartre, um dos últimos livros, cujo tema não é outro senão o seu amor por um árabe-palestino: e, é nessa carruagem de fogo, que Genet nos conduz, numa época já passada, com uma licença dada por Khomeini(?), quase etnograficamente, para dentro do cotidiano da guerrilha palestina. E, nas almofadas bordadas de dourado da leitura, Genet, outra vez, nos torna cúmplices dos Acontecimentos que narra e magnifica. Instalados nesse lugar móvel, nos tornamnos pró-Palestina.

by G. Manea.

filosofia.pro.br
usuário:giovannimanea
Outro E-mail: giovannimanea@yahoo.com.br

Tess disse...

Had Gadya cantado pela maravilhosa Chava Alberstein é uma versão da musica folk Chad Gadya, sendo que há uma troca de colocações e no final uma critica ostensiva a politica de Israel, esta música é proibida lá.
Tradução do final que é a crítica:
Por que você canta então o cordeiro?
A primavera não está aqui ainda, nem a Páscoa
Você mudou
Eu mudei este ano
E todas as noites,
Como cada noite
Eu fiz apenas quatro perguntas
Mas esta noite, me vem uma outra pergunta
Até quando durará esse ciclo infernal

Essa noite me vem uma pergunta
Até quando durará esse ciclo infernal?
Do opressor e do oprimido,
Do carrasco e da vítima
Até quando essa loucura

Alguma coisa mudou
Eu mudei este ano
Eu era um cordeiro bom
Eu me tornei um tigre e um lobo selvagem
Eu era uma pomba, uma gazela

Hoje eu não sei quem eu sou

Meu pai o comprou por apenas dois suz
O cordeiro, o cordeiro
Nosso pai o comprou por apenas dois suz
E voltamos ao ponto de partida"

Simboliza o eterno ciclo das questões políticas

Postar um comentário | Feed



 
^

Powered by BloggerBLOG FILOSOFILME by UsuárioCompulsivo
original Washed Denim by Darren Delaye
Creative Commons License